Sobre cigarros…

29 Agosto 2008 · 1 Comentário

Cigarettes

Às vezes sinto uma vontade enorme de sentar num banco de praça, tirar os óculos, acender um cigarro, e ter cinco minutos de paz, focados somente nessa fumaça. A concentração na respiração é quase que um mantra de meditação budista. Inspiro rapidamente uma tragada, e exalo o fruto da combustão calmamente, fazendo com que a fumaça ganhe formas e imagens na minha frente.

Hoje, dia em que se “comemora” o dia de combate ao fumo, somos metralhados por informações terríveis de desgraças, tragédias e do horror que o cigarro pode acometer. A propaganda do produto já foi banida da televisão. Lembro como era gostosa aquela chamada do Free Jazz Festival, que tinha um solo de sax tipo “fón-ro-ro-ro-ro-rónnn, fo-ro-ro-ró-fo-ro-ro-ro-rónnn”. Acho que fui facilmente comprado por essas campanhas. Muitas vezes relacionei o tabaco ao glamour.

Quando era pequeno, sempre tive problemas de bronquite. Crises agudas no meio da madruga que só melhoravam lá pelas 4 da manhã, abraçado com o cilindro verde de oxigênio. Tinha que tomar uns remédios que me deixavam todo tremendo, até um dia que tomei uma injeção enorme de cortisona e nunca mais tive problemas de respiração. Pedia ao meu pai que parasse de fumar. Não podia com aquele fumacê todo em casa. Ele parou e foi feliz assim. Eu também.

Meu avô fumava desde os 7 anos de idade. Eu sei que as gerações mais antigas não tinham aquela parte da vida chamada “infância”, mas mesmo assim, é um tanto chocante. Até hoje, quando vejo uma criança menor de 14 anos com um cigarro aceso entre os dedos, fico assustado, e penso que ela deve estar completamente perdida. Uma pessoa com essa idade não deveria estar buscando nos componentes químicos algum efeito para anestesiar as angústias do ser.

O que não se discute atualmente, muito menos em dias como hoje, quando é elegante defender o não-tabagismo, é justamente o spleen, o mal social do tempos modernos. Para mim, a única razão para acender um cigarro é a procura por um sentimento de tranqüilidade, que cessem qualquer tipo de mal-estar momentâneo. Às vezes é o medo de estar sozinho em determinada região da metrópole. Às vezes é o medo de estar sozinho no universo. Às vezes é só o medo de viver. Viver me faz apagar bitucas.

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1 resposta Até agora ↓

  • reisfeldt // 29 Agosto 2008 às 8:45 pm

    Vc pode rezar um terço nessas horas. Mas não se iluda: a fumaça é sim estilosa, revigorante, sedutora, e cumplíce. Apesar de no fim, te enfiar uma faca no pulmão. Maniqueísmo, gato, só pra quem tem um terço no bolso.

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